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Estamos no limite, avisam produtores de leite em reunião com prefeitos da AMM e outras entidades

Publicado em 07/01/2015
Por Karin Schmidt
Nelcindo Mayer (esquerda), Meri Gerhardt e Fernando Luis Reis (direita)

Para mais de duas mil famílias da região Noroeste, dívida das empresas Santa Rita Laticínios, Promilk, Mondaí e Bom Gosto passa de 8 milhões de reais

Apesar do esforço da Associação dos Municípios das Missões (AMM), Sindicatos dos Trabalhadores Rurais (STRs), Emater, Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Rio Grande do Sul (Fetag/RS), o assessor jurídico da empresa Santa Rita Laticínios, Tiago Pretto, não garantiu o pagamento aos produtores de leite da região Noroeste. Agricultores de São Paulo das Missões, Horizontina, São Pedro do Butiá e Santo Ângelo fizeram um desabafo sobre a grave situação enfrentada no setor, e porque confiaram a venda do leite para a indústria Santa Rita.

Depois de uma tarde inteira de negociação durante reunião realizada na terça-feira (6/1) em Santa Rosa, na sede do STR, considerando que a proposta sugerida pelo advogado da Santa Rita não foi aceita, face a ausência de um cronograma definido para quitação da dívida, a Fetag/RS, prefeitos da AMM e Sindicatos dos trabalhadores Rurais apresentaram à empresa a seguinte contraproposta:

LEITE REF. NOVEMBRO/2014
DATA PARA PAGAMENTO/VALOR EM PORCENTAGEM
08/01/2015 20%
12/01/2015 20%
30/01/2015 20%
15/02/2015 20%
28/02/2015 20%
LEITE REF. DEZEMBRO/2014
12/01/2015 25%
30/01/2015 25%
15/02/2015 25%
28/02/2015 25%

Pagamento imediato
Conforme prazo estabelecido no encontro, que foi conduzido pelo diretor de formação da Fetag/RS, Nestor Bonfanti com o apoio do coordenador da Associação dos Sindicatos dos Trabalhadores Rurais de Santa Rosa, Pedrinho Signori, além da participação de agricultores de diversos municípios missioneiros e região Noroeste, a Santa Rita Laticínios terá que se manifestar ainda nesta semana, para que na sede da empresa, em Estrela, seja formalizada a assinatura do acordo, com a presença de integrantes da AMM, Fetag e STRs.

Mais de duas mil famílias da região Noroeste não receberam o dinheiro de leite das empresas Santa Rita Laticínios, Promilk, Mondaí e Bom Gosto, que decretaram falência. A dívida totaliza aproximadamente 8 milhões de reais, mas o levantamento ainda está sendo atualizado pela Emater e STRs.

Reforço do Executivo
A participação dos prefeitos missioneiros de Cerro Largo, René Nedel, de São Pedro do Butiá, Henrique Herbele e do vice Valter Seibert, de Sete de Setembro, Rosane Grabia e do vice Nelson Petrowski, teve fundamental contribuição nas negociações com o advogado da Santa Rita Laticínios. “A AMM vai continuar empenhada nesta luta. Se for preciso iremos até a cidade de Estrela para cobrar soluções da diretoria. Da mesma forma faremos com as outras empresas, pois estaremos ao lado dos agricultores, que possuem papel primordial na economia dos municípios”, afirmou Henrique Herbele, que integrou a mesa de trabalhos. Rosane Grabia e René Nedel informaram ao público sobre as medidas que estão sendo adotadas pela Associação para ajudar o setor. Entre elas, uma audiência com o governador José Ivo Sartori e uma audiência pública na sede da AMM, previstas para este mês.

Onde está o dinheiro?
Este foi o principal questionamento dos mais de 50 agricultores que estavam na reunião, quando se referiram ao leite que entregaram para a empresa Santa Rita. Morador de São Paulo das Missões, Fernando Luis Reis, que tem na produção de leite a única fonte de renda, relatou que tem 7 mil reais a receber, desde novembro passado, e muitas, muitas contas a pagar. “Não sei mais o que fazer. Meu nome está no Cerasa, tenho cheques pendentes até março, sem falar dos empréstimos bancários. Afinal, onde está o dinheiro do leite que entregamos à Santa Rita Laticínios?”, indagou Fernando ao evidenciar: “a empresa alega que não pode tirar o valor de outro setor para nos pagar, e nós, temos que vender os animais da propriedade e até nossos bens, porque o banco não perdoa nossas dívidas. Estamos no limite do desespero”, desabafou o produtor.

Honrando compromissos
Presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de São Pedro do Butiá, Nelcindo Mayer falou que apesar dos prejuízos, os produtores são honestos e estão fazendo o possível para quitar as contas. “Acabamos de sair de uma empresa onde levamos um calote de 45 dias, e agora estamos nas mãos de outra, a Santa Rita Laticínios. Não recebemos o dinheiro, mas com a pouca reserva que nós, pequenos agricultores, ainda temos, estamos honrando nossos compromissos. Vivemos somente da produção de leite e não temos outra fonte de recursos. Todos estamos no limite e sem perspectivas”, lamentou.

Abandono das propriedades

Nelcindo chamou a atenção para outra possibilidade em consequência do calote das empresas de leite: o êxodo rural. "Para que possamos permanecer em nossas propriedades, precisamos receber ao menos uma parte do nosso pagamento. Ou então, seremos obrigados a deixar o meio rural e procurar emprego nas cidades para que possamos sustentar nossas famílias", alertou o presidente do STR de São Pedro do Butiá, que também é agricultor.

Na avaliação da produtora Meri Gerhardt, de Horizontina, vale qualquer sacrifício para receber o dinheiro e evitar o abandono dos trabalhos na área rural. "Sou agricultora e sofremos um calote de 48 dias sem receber nada da empresa Santa Rita, com prejuízo em torno de 13 mil reais. A renda mensal de minha família depende exclusivamente da produção de leite. Se necessário, estamos dispostos a invadir a empresa para que tenhamos o retorno do nosso pagamento", avisou.

Credibilidade 
Para o produtor rural de Santo Ângelo, Nardeli Gebert Cassel, o que motivou a maioria dos agricultores da região a venderem leite para a Santa Rita Laticínios, foi a confiança no nome de um dos donos, o empresário Nestor Müller. “Estes problemas de calote vêm acontecendo há muito tempo. Saímos de uma empresa e passamos a vender para esta, de Estrela, justamente pela credibilidade do nome do Nestor Müller, que é um dos proprietários da Santa Rita Laticínios e outras empresas de grande porte no RS. Confiamos a venda do nosso leite, mas em nenhum momento nos foi passado que eles estavam com dificuldades de caixa”, explicou Nardelli.

O produtor disse ainda que no dia 23 de dezembro passado, ele e outros agricultores estiveram em Estrela, na expectativa de conversar com Nestor, mas não foram recebidos. “Na reunião de hoje esperávamos por ele ou outro integrante da diretoria, no entanto, mandaram o advogado da empresa. É difícil acreditar que um empresário como o Nestor Müller não tenha condições de pagar os produtores de leite”, ressaltou o agricultor missioneiro, informando que produz em média 1.500 litros de leite por dia, com prejuízo já estimado em 42 mil reais. “A empresa quebra e nada acontece com ela. E o produtor, por ser honesto, preocupa-se em encontrar alternativas de pagar suas dívidas, mas fica a Deus dará, sem nenhum amparo”, enfatizou Nardeli Gebert Cassel.

 

 

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